quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Colinho de Deus



A ELE DEDICADO E LUCIA REIKO- l983


Ele deu sua risada.

E fez rosa com beliscão

Na bochecha da namorada

Que vive em seu coração.

Deus é um amor de amor,

Gosta de tudo que existe,

Fica triste, mas também fez dor

Para ver como a gente resiste.

E a gente logo chora muito

Porque sofrimento é coisa séria.

Que Ele também sofre junto.

Ele ampara a dor da miséria.

O colinho de Deus é divino:

Tem muito carinho toda hora.

Ele diz: -Vem cá, meu menino!

Para mim, ao vovô e à senhora.

Ele me pega com jeitinho

E dá um beijo no meu coração!

E muito contente faz mais carinho!

Que delícia o colo do Velhão!

Ele olha tudo pelo meu olhar,

Por isto o meu olhar é matreiro:

Porque Ele sabe que o meu lugar,

É o colinho do Velho Companheiro.


Maria Luiza Soares Fernandes

Eu amava o Caetano


Não sabe o mundo, mas eu,
Do grande amor em mim,

Sempre a que mais ardeu,
No fogo sacro que se ergueu,

No fundo abismo que trago em mim!


Eu o amava mais que o próprio Deus
Porque o sentia mais que o Divino.

Na voz de homem destes meus

Caminhos tortos que é meu destino,

Ardo a febre de desejo tigrino.


Estás em mim como o pensamento,

Como meu sangue e meu absinto.

Estrela muda do meu firmamento,

Verdade pura a quem nunca minto!

Só o ter-te é ao meu sofrimento.

Quero-te, oh flor da alma em sonho!

Padeci de desejos vis e tão sublimes,

Sei rir qual louca um riso tristonho...

À lágrima, porém, tudo enfim redimes!

Quis remir os meus desejos à hora,

Que senti fundo o corpo despertado.

E a cada beijo que atiravas fora,

Morreu em mim à dor do meu pecado.

E a solidão por ti o amor chora!

Quero você, amo a ti, desejei-te, mas!

Mas nunca a vida terá este sentido.

Loucura minha, paixão do céu entristecido,
Por não ter provado o gosto teu jamais!

Assim, amei-te em paz do gesto dolorido!

E se seguires adiante nesta tua vida,

Ao lado de outra que te completa,

Morrerei de ciúmes e dor embrutecida,

Como dríade ferida por tua seta.

Como te amei morrerei perdida.


Maria Luiza Soares Fernandes

Sal e Suor


A gema cai por terra,

Quebrando vidrilhos,

Esfacelando buris,

No Cristo da serra.

O sangue dos rubis,

Que o clarão descerra,

Molha de brilhos,

Os olhos vermelhos,

Dos Filhos da Terra!

Mãos esfarinham.

Caras abocanham.

Mãos acarinham.

Bocas assanham!

De mil maneiras,

À caça da fama,

Urdiu-se besteiras,

Nos colos das camas.

Depois das cadeiras,

Os peitos das amas,

Adormeceram soneiras,

Em orgias romanas!

Atravesso o postigo.

Ilumino a janela.

Sinto o castigo

Abaixo do umbigo.

Ardo em procela!

O raio seco estala,

A língua de água,

Que abate a fala,

No seio da frágua!

Recolho preciosamente

A semente do amor,

Compondo no vitral da mente,

O calvário de sal e suor!


Maria Luiza Soares Fernandes 20-09-1983